Análise: levantamento Quaest indica desgaste de Lula e cenário eleitoral indefinido
Os dados mais recentes da pesquisa Genial/Quaest sugerem um quadro eleitoral longe de estar resolvido. Embora o presidente Lula (PT) apareça numericamente à frente em simulações de primeiro e segundo turnos para 2026, o conjunto dos indicadores revela um elemento mais decisivo: sinais de fadiga do eleitorado em relação ao atual governo.
À primeira vista, os números poderiam ser interpretados como vantagem confortável para o presidente. No entanto, uma leitura mais ampla mostra que a disputa permanece aberta e que o principal desafio petista é o crescimento da rejeição ao chefe do Executivo.
Os índices atuais apontam que 49% dos entrevistados desaprovam a gestão, enquanto 45% manifestam aprovação. A avaliação negativa atinge 39%, contra 33% de avaliação positiva. A rejeição pessoal ao presidente também avançou, passando de 49% no início de 2025 para 54% em fevereiro de 2026. Em simulações de segundo turno, a vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro encolheu de forma significativa em relação ao ano anterior.
Dentro do PT, esses dados podem ser relativizados publicamente, mas o próprio presidente demonstra reconhecer o cenário desafiador. Em discurso recente, enfatizou a necessidade de mobilização interna e destacou que a disputa eleitoral será marcada por forte embate narrativo.
E justamente aí reside um ponto sensível. A estratégia de comunicação adotada mantém elementos tradicionais do discurso petista — políticas sociais de grande alcance e defesa de um Estado robusto — fórmula que já foi bem-sucedida em ciclos eleitorais anteriores. Contudo, o contexto social e político mudou, alterando o perfil do eleitor decisivo.
Hoje, o voto que tende a definir a eleição se concentra em segmentos de renda média e perfil mais moderado, que priorizam mobilidade social e eficiência estatal. Entre quem recebe de dois a cinco salários mínimos, a desaprovação supera a aprovação, indicando distanciamento desse grupo em relação ao governo. Enquanto a base histórica do lulismo permanece fiel, setores intermediários mostram maior resistência.
A percepção de continuidade também pesa. Parte relevante do eleitorado avalia que o atual mandato não supera gestões anteriores e demonstra hesitação quanto a uma nova recondução. Esse sentimento alimenta a ideia de que a candidatura presidencial enfrenta o desafio de convencer que ainda há novidades a oferecer.
Mesmo assim, a eleição não está definida. O desempenho de Lula dependerá também da organização de seus adversários. Flávio Bolsonaro surge como nome competitivo dentro do campo conservador, enquanto Ratinho Júnior aparece como alternativa de perfil mais moderado. A capacidade da direita de se articular — unificada ou fragmentada — tende a influenciar diretamente o resultado.
O cenário aponta para uma dinâmica em duas etapas: um primeiro turno marcado por disputa interna no campo oposicionista e um segundo turno que pode reeditar a polarização tradicional. Para manter competitividade, o governo precisará renovar sua comunicação e propostas. Já a oposição dependerá de coesão estratégica para transformar potencial eleitoral em vantagem concreta.