Estudo aponta redução de reservas subterrâneas de água em diversas regiões do Brasil

Estudo aponta redução de reservas subterrâneas de água em diversas regiões do Brasil

Uma pesquisa considerada a mais abrangente já realizada sobre os recursos hídricos subterrâneos do país acende um alerta para o uso dos aquíferos brasileiros. O levantamento indica que, em várias regiões, especialmente aquelas com forte atividade agrícola e histórico de secas frequentes, a retirada de água já supera a capacidade natural de reposição pelas chuvas.

Os resultados foram publicados na revista científica Science Advances e mostram que algumas áreas do Nordeste e do Sudeste apresentam um cenário semelhante ao observado em regiões áridas do mundo, como partes do Irã, da Índia e dos Estados Unidos.

Segundo os pesquisadores, as águas subterrâneas são responsáveis por cerca de 98% do volume de água armazenado no Brasil, enquanto as águas superficiais representam apenas 2%. Os rios, por sua vez, concentram uma parcela ainda menor, equivalente a aproximadamente 0,2% do total.

Tecnologia e inteligência artificial ajudaram na análise

O estudo foi coordenado por especialistas do Serviço Geológico do Brasil e do Centro de Voo Espacial Goddard, da Nasa. Para avaliar a situação dos aquíferos, os cientistas utilizaram informações obtidas por satélites capazes de detectar alterações no campo gravitacional da Terra, permitindo identificar mudanças na quantidade de água armazenada no subsolo.

Esses dados foram integrados a informações meteorológicas, hidrológicas e de uso da água por meio de modelos de inteligência artificial. A partir disso, os pesquisadores reconstruíram a evolução das reservas subterrâneas entre 2002 e 2023.

A análise aponta que, nesse período, aproximadamente 12% da precipitação média anual foi destinada à recarga dos aquíferos, o que representa um volume estimado em cerca de 1.900 quilômetros cúbicos de água.

Cenários variam conforme a região

Os resultados mostram comportamentos distintos entre as regiões brasileiras. Em áreas da Amazônia e em partes da região Sul, houve crescimento no armazenamento de água subterrânea.

Na Amazônia, a relação entre rios e aquíferos é especialmente dinâmica. Em determinados períodos, os rios contribuem para abastecer o subsolo; em outros, ocorre o processo inverso, com os aquíferos alimentando os cursos d’água. Essa interação é influenciada pelo regime de chuvas, pelo relevo predominantemente plano e pela extensa presença de áreas alagadas.

Os pesquisadores destacam que períodos de baixa disponibilidade de água subterrânea podem aumentar o risco de redução da vazão dos rios amazônicos, especialmente durante eventos de seca prolongada.

Regiões registram perda contínua de água subterrânea

O cenário mais preocupante foi identificado em áreas localizadas entre o Centro-Oeste, o Nordeste e o Sudeste. Nessas regiões, os dados revelam uma redução persistente das reservas subterrâneas ao longo das últimas duas décadas.

Entre os pontos mais afetados está o Sistema Aquífero Urucuia, que abrange áreas do oeste baiano e possui forte ligação com a bacia do Rio São Francisco. Também foram observadas perdas em áreas do Cerrado associadas às bacias dos rios Paraná e Tocantins-Araguaia, além dos aquíferos Guarani e Serra Geral, amplamente utilizados para abastecimento e irrigação.

No Pantanal, a pesquisa também identificou sinais de redução das reservas subterrâneas, possivelmente relacionados às mudanças recentes nas atividades agropecuárias e às alterações na capacidade de infiltração do solo.

Agricultura, secas e uso intensivo da água estão entre os fatores

Os autores ressaltam que o estudo não estabelece uma relação direta de causa e efeito para cada localidade analisada. No entanto, as áreas que apresentaram perdas contínuas coincidem, em muitos casos, com regiões de expansão agrícola, aumento da irrigação, maior número de poços e recorrência de períodos secos.

A avaliação indica que o problema é resultado da combinação entre fatores climáticos e a crescente pressão exercida pelas atividades humanas sobre os recursos hídricos subterrâneos.

Impactos podem chegar aos rios

Além de comprometer as reservas subterrâneas, a redução dos aquíferos pode afetar diretamente os rios brasileiros. Isso porque uma parcela significativa da água que mantém os cursos d’água ativos durante longos períodos sem chuva tem origem justamente no subsolo.

Dessa forma, a diminuição dos estoques subterrâneos pode influenciar o abastecimento hídrico, a produção agrícola e os ecossistemas que dependem da manutenção do fluxo dos rios ao longo do ano.